Autenticidade: A vida é muito curta para se preocupar com o que o outro está pensando!
- Débora Paschoal Lambiasi

- 29 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
“Esperei o dia todo pelo meu marido, me arrumei, fiz um jantar maravilhoso e, quando chegou do trabalho, ele simplesmente me deu um oi e foi direto para o banho! Tanto trabalho para agradá-lo e ele não me dá atenção! O que eu fiz de errado? Por que ele não gosta de mim?”
“Trabalhei duro o dia todo, peguei metrô lotado e o que eu mais queria era chegar em casa e tomar um bom banho. Quando chego minha esposa mal me fala oi e já começa a me criticar! Não consigo agradá-la de jeito nenhum! O que fiz de errado para ela não gostar de mim?”
Esse é um texto fictício, mas que representa muitos casais que aparecem no meu consultório. A busca pela aprovação do outro a qualquer custo e a dificuldade na comunicação causam desentendimentos e brigas que poderiam ser evitados se as pessoas se aceitassem e entendessem que o outro pode ser diferente, pensar de uma forma diferente e mesmo assim aceitar e mesmo gostar de quem você realmente é quando não está tentando apenas agradar.
Autenticidade é definida como “genuinidade e fidelidade à verdade”, ou seja, para que uma pessoa seja autêntica, ela deve entender e agir de acordo com sua própria personalidade, valores e visão de mundo. Se pararmos para pensar, é o que todo mundo deveria fazer, não? Mas a verdade é que isso é muito raro. A grande maioria das pessoas busca desesperadamente ser aceita e se adequar à uma sociedade que exige demais com base em padrões totalmente disfuncionais.
Essa tentativa de agradar já começa nos nossos primeiros suspiros. O ser humano precisa do outro para sobreviver, para poder se alimentar e se proteger nos primeiros anos de vida, para aprender a conviver em sociedade, para se sentir confiante, aceito e amado. E o ser humano precisa de tudo isso para conseguir se desenvolver, trabalhar, se sustentar e, muito importante, se relacionar.
E como um bebê consegue o que precisa para sobreviver? Ele se manifesta através do choro, mas também vai aprendendo a “ser fofinho” para que queiram lhe dar comida, colo, proteção. O ser humano aprende instintivamente a fazer gracinhas que agradam os adultos com quem convive. E ao longo da vida aprendemos a importância de se sentir aceito, adequado, parte do grupo e, principalmente, amado. E é muito comum que algumas distorções cognitivas aconteçam pelo caminho.
Para entender um pouco melhor, gostaria de trazer alguns conceitos da terapia cognitivo-comportamental (TCC), uma das abordagens mais eficazes para lidar com uma variedade de questões emocionais e comportamentais, exploramos os mecanismos internos da mente. Três conceitos cruciais se destacam nesse processo:
1. Crenças Centrais: São as convicções fundamentais que temos sobre nós mesmos, os outros e o mundo ao nosso redor. Elas moldam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, servindo como uma espécie de lente através da qual interpretamos a realidade.
2. Pensamentos Automáticos: Estes são os pensamentos espontâneos e instantâneos que surgem em resposta a situações específicas. Muitas vezes, não estamos plenamente conscientes deles. Podem ser positivos, impulsionando-nos para a frente, ou negativos, desencadeando uma cascata de emoções desafiadoras.
3. Distorções Cognitivas: São os desvios da realidade que nossa mente frequentemente comete. Essas distorções, como o pensamento catastrófico ou a generalização excessiva, podem levar a interpretações distorcidas da realidade e a respostas emocionais desproporcionais.
Na prática da TCC, trabalhamos para identificar essas engrenagens internas, desafiando crenças limitantes, reestruturando pensamentos automáticos disfuncionais e corrigindo distorções cognitivas. Ao fazê-lo, capacitamos os indivíduos a desenvolver uma perspectiva mais realista e adaptativa, promovendo assim uma melhor saúde mental e bem-estar emocional.
Levando isso em consideração, vamos voltar ao exemplo que eu trouxe no início do artigo. A esposa provavelmente tem algumas crenças centrais que levam a pensamentos automáticos como: “Se eu não estiver bonita o suficiente, meu marido não vai me querer”; “preciso agradar meu marido a qualquer custo para ser boa o suficiente”; ou mesmo “o que eu tenho de tão errado que, mesmo me esforçando ao máximo, as pessoas não gostam de mim?”
O marido, por sua vez, poderia ter pensamentos automáticos como “faço de tudo para ser um marido exemplar e não consigo agradar”; “não sou valorizado por tudo que faço e as mulheres não conseguem entender isso”; ou mesmo “as mulheres são todas iguais, só querem usar o meu dinheiro”.
Também é possível que o casal em questão tenha vindo de famílias com estilos completamente diferentes, que levam a expectativas totalmente diferentes. Então a esposa tenta agradar da maneira que aprendeu que deveria agradar seu companheiro, criando expectativas baseadas em sua crença e o mesmo acontece com seu companheiro. A confusão está formada!
Mas como organizar tudo isso?
O primeiro passo é você parar para se conhecer, saber quem você é, o que gosta, aonde quer chegar, independentemente do que pode ser esperado de você. Pode parecer algo fácil, mas é algo que poucas pessoas param para pensar. Então se pergunte: se você não precisasse ser aceito, quem você seria? o que você faria? com quem você se relacionaria? Por que seria bom se relacionar com alguém como você? quais valores são importantes para você? o que é essencial em um relacionamento? o que você não aceitaria de jeito nenhum?
Observe suas qualidades, pense nos seus pontos de melhoria, o que gostaria de mudar e como pode começar a fazer isso agora.
Se você está em um relacionamento, olhe para essa pessoa sabendo que ela não é igual a você em valores, pensamentos, crenças e expectavas e que está tudo bem, ninguém é igual a ninguém. Lembre-se disso, esteja aberto para o diferente, mas pergunte a si mesmo se realmente é essa pessoa que você quer para se relacionar, conversem sobre isso e lembre-se que, claro que é muito importante buscar melhorar sempre, ser empático, fazer pelo outro, mas tudo precisa de um equilíbrio e sempre haverá pessoas que não vão gostar de você, mas também terão muitas que vão te amar do jeito que você é.
Para isso acontecer há uma pessoa que é muito importante, que a aceite, a conheça e a ame do jeitinho que você é: você mesma!




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