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Autoconhecimento: uma visão positiva do futuro

  • Foto do escritor: Mauricio Lambiasi
    Mauricio Lambiasi
  • 29 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

“Frequentemente tenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou dizendo.”

                                                 Oscar Wilde


Conhece-te a ti mesmo, a famosa frase encontrada na entrada do templo de Delfos, na antiga Grécia, talvez nunca tenha sido tão relevante como no momento em que vivemos. Ser ou ter? Ter ou ser? É preciso escolher? São excludentes?

                   

É verdade que estamos vivendo uma espécie de “ponto e vírgula” no curso da humanidade; parece que caminhávamos inexoravelmente para a prosperidade material, um extraordinário avanço tecnológico, expectativa de vida crescente, conquista espacial, mundo globalizado, informações aos cântaros, grande parte inverídicas...desigualdade social, autoritarismos de diversas matizes ideológicas...mas nunca estivemos tão bem em termos de bem estar, relativa paz mundial, apesar de toda a complexidade que é o viver.

                   

Tudo isso para dizer que realmente vivemos “para fora”, ou seja, todos os estímulos que recebemos nos remete às coisas, às pessoas, às necessidades externas, como se tudo fosse criado para evitar que olhemos sincera e honestamente para nós mesmos. A dinâmica da sociedade é intensa e entramos em uma miríade de atividades, muitas das quais não sabemos nem os porquês.

                   

Qual é o seu sonho? Ter um bom emprego, ter um bom imóvel, ter um carro, ter uma casa na praia, ter, ter, ter, te, t....e que é preciso fazer para isso? Estudar (coisa desagradável), ler (horrível, monótono), fazer muitos cursos... ”O líder perfeito”, “Desenvolva seu talento em cinco dias”, “Aprenda inglês em cinco semanas”, “Você pode!”, “Você merece!”...o que importa é o aqui e o agora, eu quero A G O r a...

                   

Pois bem, não se trata de saudosismo, mas sem uma “infraestrutura” intelectual mínima, para onde vai a nossa vida? Por que não lemos bons livros como deveríamos, por que não há estímulo para uma boa formação intelectual, por que não desenvolvemos o pensamento crítico, por quê? 

                   

Bem, não há respostas simples, os problemas educacionais são imensos, mas o imediatismo e a superficialidade não é exclusividade de países atrasados como o nosso; é fruto da própria “evolução” da humanidade, de quem “dá as cartas” no jogo econômico, político. O interesse é vender coisas, ideias prontas, debates frívolos, inconsistentes, agressivos. Voltamos à questão do ter, não apenas de coisas materiais, mas de ter sempre razão, não importa qual seja o argumento falacioso. O importante é ter razão, impor nossa verdade, obter vantagem, falar do outro; sim, sempre é o outro, jamais nós mesmos.

                   

Será que os motivos são apenas esses? Externos? Provavelmente não. Uma análise sob o ponto de vista biológico, evolutivo, indica que olhar para dentro de nós mesmos, com transparência, autocrítica, honestidade, dá muito trabalho. Pensar gasta muita energia. 

                   

Nosso corpo foi concebido e desenvolvido em um ambiente de escassez de recursos energéticos. Não era nada fácil ganhar o “pão de cada dia”, colhendo frutos, sementes, caçando, com todos os riscos que isso significava. Sabemos que 20% da energia que geramos, ao consumir alimentos, vão para o nosso querido cérebro, ou seja, é um grande “gastador energético”. 

                    Por que gastar tempo e energia pensando sobre mim, se sou uma boa pessoa, quais minhas fraquezas, qualidades, se posso utilizar esse tempo e energia para buscar novas relações, novas oportunidades de trabalho, de ganhar dinheiro de adquirir coisas, de lazer, de curtir a vida?

                   

Sim, pensar dá trabalho, gasta energia, despende tempo; ler bons livros, de conteúdo enriquecedor, dá trabalho; ler sobre ciência, dá trabalho; desenvolver pensamento crítico, dá muito trabalho. Além do mais, as armadilhas das ideologias e religiões estão aí para “laçar-nos” de maneira nada magnânima. Que poder! Aliás, o processo mental que faz com que sejamos dominados pelas ideologias e religiões, parecem ser os mesmos, ou muito semelhantes. Isso pode explicar o motivo de termos pessoas inteligentes, cultas, mas dominadas por essas duas poderosas Curupiras, dominando uma imensidão de pessoas, de organizações.

                   

É verdade que as religiões, ao longo do tempo, tiveram um papel muito relevante no que diz respeito à coesão social, freio moral, além da espiritualidade em si, que é uma importante dimensão humana. O problema é outro. O mesmo se poderia dizer da ideologia política, que também funcionaria como uma forma de coesão social, uma maneira de avançar em temas muito relevantes para o desenvolvimento social. O problema também é outro. Temas para um artigo à parte.

                   

E o autoconhecimento? Pois bem, esse é o tema, essa é a dificuldade. Autoconhecer-se indica capacidade de pensar, de criticar; significa ter que conhecer o que pensar, sentir, intuir, analisar. Cá entre nós, é muito mais fácil ver os problemas, carências e deficiências alheias. O problema são sempre “as pessoas”. As pessoas são muito superficiais, as pessoas não se enxergam, as pessoas só querem receber, as pessoas, as pesso, as pes...

                   

Autoconhecer-se significa ter um repertório intelectual para saber identificar e verbalizar para si aquilo que se vê no espelho, através do “espelho da alma”, significa um padrão de honestidade implacável, de autocrítica tenaz, incorruptível, mas sempre construtiva, onde a autocompaixão esteja presente.

                   

Autoconhecimento indica a necessidade precípua de compreender as próprias emoções, os próprios sentimentos. Significa ter a consciência de que as emoções muitas vezes dominam nossas ações; aliás, somos muito mais emocionais que imaginamos. São essas emoções que nos desviam de nós mesmos, que nos levam a ver os problemas dos outros, afinal, é muito mais fácil do que encararmos nossas fraquezas, debilidades.

                   

O aspecto positivo de tudo isso, é que tivemos uma enorme oportunidade, o destino nos preparou uma surpresa dolorosa que é o momento que estamos passando, mas também uma excelente oportunidade de vivenciarmos a introspecção, o olhar para si, de obter uma vivência interior intensa. A vida nos proporcionou uma oportunidade ímpar para isso. Isolamento não precisa significar penúria, desânimo; ao contrário, pode simplesmente nos levar para dentro de nós mesmos. 

                   

Quem sou eu realmente? O que penso? O que verbalizo? Como atuo? O que sinto? Por que sinto o que sinto? Minhas ações estão voltadas para o bem estar do outro? Tenho ações construtivas para o crescimento das pessoas ao meu redor, para o meu próprio crescimento? 

                   

A vida nos trouxe essa oportunidade, penso que viveremos dias melhores a partir de agora, não como um passe de mágica; muitas coisas simplesmente voltarão a ser exatamente o que eram, mas muitas também não, é o momento de mudar, de olhar para nosso interior, de crescer verdadeiramente como seres humanos que somos. A vida pode ser muito boa, muito gratificante muito edificante, não a desperdicemos...

 
 
 

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