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O fim do ano e a clínica da angústia

  • Foto do escritor: Lucimeire Assis Mendonça
    Lucimeire Assis Mendonça
  • 29 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

O final do ano costuma reativar, em muitos sujeitos, uma experiência intensa de angústia e frustração. Não apenas pelo encerramento de um ciclo temporal, mas pelo confronto com ideais que retornam em forma de cobrança: metas não cumpridas, projetos interrompidos, promessas feitas a si mesmo que parecem ter fracassado. O calendário se fecha como se exigisse um balanço moral da existência.

                   

Na clínica, é frequente escutar relatos marcados pela culpa: “não fiz o suficiente”, “não fui capaz”, “mais um ano se passou e eu fiquei para trás”. Essa lógica sustenta a fantasia de que o tempo deveria ser plenamente dominado e que a vida poderia obedecer a um planejamento linear, sem falhas, desvios ou perdas. O sujeito, então, se vê capturado por um Ideal do Eu que cobra produtividade constante, felicidade performática e sucesso mensurável.

                   

Entretanto, essa cobrança raramente nasce do desejo singular. Ela se ancora em padrões sociais, culturais e mercadológicos que definem o que seria uma vida “bem-sucedida”, desconsiderando os atravessamentos subjetivos, os lutos, os limites do corpo, as rupturas inevitáveis e os efeitos do real. O fracasso, nesse contexto, não é necessariamente vivido — ele é produzido pela comparação com um ideal impossível.

                   

A pergunta clínica que se impõe não é “por que não consegui?”, mas “a que ideal estou tentando responder?”. Muitas vezes, ao escutar o sujeito para além da culpa, emerge outra narrativa: a de alguém que resistiu, sustentou vínculos, atravessou o sofrimento, fez escolhas difíceis, renunciou a certos caminhos para preservar outros. Experiências que não entram nas listas de metas, mas que dizem muito sobre o trabalho psíquico realizado ao longo do ano.

                   

O encerramento do ano pode funcionar, então, como um momento privilegiado para interrogar os ideais e recolocar o desejo em cena. Não como exigência de reinvenção imediata, mas como possibilidade de escuta. O que foi possível? O que precisou ser abandonado? O que ainda pede elaboração?

                   

Talvez o sofrimento que emerge nesse período não esteja ligado ao que faltou fazer, mas à violência de se exigir uma vida sem falhas. A clínica nos lembra que viver implica perdas, repetições, adiamentos e limites. E que reconhecer isso não é sinal de fracasso, mas de humanidade.

                   

Que o fim do ano possa ser menos um julgamento e mais um espaço de elaboração — onde o sujeito possa se autorizar a existir para além das metas, e se aproximar, ainda que aos poucos, daquilo que verdadeiramente deseja.

 
 
 

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